segunda-feira, 21 de maio de 2012

Juntando Cacos


Chega um determinado momento em que se observa que tudo e nada faz o mesmo sentido, tem a mesma essência, o mesmo significado. É quando se olha pro passado e só há cortes não remendados, pausas esquecidas, prazos não cumpridos, estilhaços varridos, pinturas inacabadas, frases não ditas, trancas enferrujadas. Cada esquecimento, cada caco não vivido é uma história completa perdida, um desandar contínuo num espaço sem passo. É quando a perspectiva do horizonte é reversa, a esperança de cada manhã termina após o almoço e a força se esvai. Agora o nada é tudo e tudo é nada, com um arco-íris incolor numa visão clara e óbvia de que nenhuma cor tem mais a mesma cor, no de-sabor de um paladar ácido, de uma vida inerte.


É nesse instante em que te avisto, pequena e cheia de grandeza, definida em traços únicos e singelos, de sutileza insípida e doçura tenra, onde incide um ardor vívido e em plenitude, onde faz-se enxergar que um amor é mais explicativo do que as letras, que um amar reconstrói cada caco e se une a novos, que traz tinta nova àquele quadro, que refaz pausas e cria recomeços, que abandona trancas e abre novos espaços.

Assim é te amar, oriundo de um moribundo, que de valor só o próprio amor, e que talvez ainda não saiba o que é amar, mas que assume tal ignorancia se tu lhe puder ensinar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Calma Aí Coração

Calma Aí Coração
Zeca Baleiro

Eu já falei tantas vezes
E você nada de me ouvir
Vão-se os dias, anos e meses
E tudo que você sabe fazer é sentir
Quantas canções falam de você
Tantas paixões sem você não são
Não pare nunca pra eu não morrer
Nem voe tão mais além do chão
Deixa, me deixa em paz, ó meu coração
Chega, o que liberta é também prisão
Deixa, deixa assim, só e salvo e são
Quem tanto bate um dia apanha
Chega de manha, não me assanha
Doido, louco, maluco coração
Coração surdo não tem juízo
Não ouve nunca a voz da razão
E razão você sabe, é preciso
Pra curar a sua loucura, coração
Bandido cansado de enganos
Heróis de capa e espada na mão
Esquece metas, retas e planos
Veleja no mar escuro da ilusão 
http://www.youtube.com/watch?v=XaqaqRuU9Hw

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poeira de Vida


Tem horas que a gente acha que o mundo enlouqueceu, que as pessoas piraram de vez, que nada mais faz sentido, que nada é mais como antes, que tudo está tão diferente e mudado, quando na verdade tudo é igual desde sempre e nunca mudou, cada acontecimento, cada atitude pessoal é a mesma, não há reviravolta, não há nada tão novo assim. Na verdade tudo se repete do início ao fim, são poeiras que não se apagam, os retratos são os mesmos, com cores acrescidas, agora os sorrisos amarelos são realmente amarelos e não em preto e branco, os beijos insossos agora tem apenas batons  de marcas diferentes, mais ou menos caros, as frases mórbidas continuam mórbidas, sejam no ativo ou no passivo, no pretérito perfeito ou imperfeito, amigos continuam, nem sempre, amigos, mas colegas sempre serão colegas, até os olhares falsos por trás de um Ray Ban continuam por trás deles, talvez os falsos óculos também estejam mais escrachados.


Mas sabe quando tudo isso realmente faz sentido? Quando você começa a se importar. E sabe qual a importância disso tudo na nossa vida? No fundo nenhuma, nada disso afeta a sua vida ou o seu caminho, pelo menos não deveria, já que a relevância disso tudo é proporcional a qualquer coisa de extrema insignificância. Viver ligado nesses fatos, nesses atos é cegar-se para o que realmente importa e se ligar em algo improdutivo e desnecessário, é alocar forças para algo nulo e sem valor, desonerando àquilo que realmente precisa de toda a força e empenho. Manter o foco apenas na sua própria construção sem permitir a interferência da poeira do passado presente no futuro.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Último Trago


Ela, ela que chegou sem avisar, sutil e de mansinho entrou primeiro pelos meus olhos, com aquele sorriso indescritível, diferente de tudo já visto, depois pelos ouvidos, com uma voz tão suave e ao mesmo tempo tão presente que me arrepiou da cabeça aos pés e me trouxe uma sensação absurda, sensação fora de controle.
Ela se aproximava, aliás, comecei a perceber que ela não se movia nem um milímetro, eu é que era puxado pra ela, não adiantaria eu me recusar, era mais forte, mais intenso que qualquer outra coisa, nada faria aquilo parar. Não entendia mais nada, como perdi todo o controle sobre mim, sobre meus desejos e ações, meu corpo não me obedecera mais. Mesmo assim a sensação era boa, ela sabia me conduzir de forma única, eu permitia então me dominar, estar presente do jeito dela. Não desejei mais o fim de nada, tudo poderia ser contínuo e pleno.
Ah ela... Me drogou, me viciou, não havia condição nenhuma de não estar com ela, de não sentir o êxtase daqueles momentos. Mas ela realmente me drogou, porque agora sinto o efeito da abstinência, o efeito contrário àqueles instantes, o devaneio que consome, a consciência inconsciente que turva toda a visão que antes era límpida, o furor levado ao avesso. Ela meu deu uma dose dela, me ensinou a consumi-la, agora esfumaça como o último trago...me deixando a mercê da memória, da lembrança que não se alimenta por si, se alimenta de mim, do meu eu viciado e consumista. Não há remédio, vacina, antidoto ou tratamento, mas disso você já sabia, como sabia que eu precisava apenas de um mínimo de você para viciar, pra me perder. E agora, mesmo insano, não procuro mais a droga que é você, agridoce, instigante, voraz e fugaz. Me deleito em saber que você não sabe, mas a droga que sou eu também te viciou e que breve moverá você a mim sem eu sair daqui nem mesmo um milímetro.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Indiscutivelmente Única

Sexo frágil. Quem ou o que é esse tal de sexo frágil? Desconhecido é de fato forma ou ser, incompreendido não só 'talvez', é incompreendido 'com certeza', incompreendida por natureza, até pela única beleza.


A mulher recebeu esse "status" não de forma receptiva, mas de maneira imposta e sem merecimento. A mulher é própria e única dentro de uma mescla infinita de exposição interna, singela e expressiva, com toda a força insuficiente de mal fazer sem a devida proporcionalidade desproporcionalmente aos momentos em fúria, seguidos de delicadeza descomunal em comum à todas elas, com a firmeza e a dureza de um ser que suporta todos os percalços com a emotividade ao fim de uma novela, com um carinho de quem firma a opinião e não volta atrás. Essa, talvez, seja a mulher, um ser único e múltiplo, definitivamente indefínivel e bela, capaz de ser ela mesma e várias ao mesmo tempo, sem perder uma essência, indiscutível, de vida.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Uma Mágica com Mais Magia


A gente pisa na bola, mete os pés pelas mãos. Se coloca na frente da carroça. Nos qualificamos em todas essas frases juntas e aplicadas ao mesmo tempo. E nem sempre temos algo a dizer a favor, às vezes nem nós estamos a nosso favor. Certas coisas são injustificáveis, inexplicáveis.
Todos nós ouvimos todos os ditados, conselhos dos avós e ainda assim pagamos pra ver, temos a mania de querer varrer a possibilidade do hoje pro amanhã, crendo que tudo poderá ser resolvido de alguma maneira mirabolante, caída do céu ou num tropeço qualquer e rotineiro. Há horas que pretendemos ser como um mágico que transforma e oculta o que bem entende no momento mais oportuno e não nos damos conta que se trata apenas de algo ilusório, e que no mundo real não pode e nunca poderá ser feito dessa forma. A mágica existente, aplicável, deve ser a do encanto verídico, do encanto com o singelo, pontual e límpido. E que quanto mais tentamos nos aproximar do mágico, mais distante da plateia se fica. A plateia exige que ter certeza é melhor que imaginar. Mas o mais importante nem é a plateia, já que nem toda ela vai te aplaudir mesmo, a maioria deve até vaiar.
A mágica em si está no brilho de assombro e encantamento que se acende nos olhos de quem vê e o importante nem sempre é como ela acontece, no que há por trás. O que conta são os poucos que ficam durante o show e aplaudem mesmo quando a tentativa falha, quando você cai por terra, o que conta é o quanto se persiste até o acerto, porque mesmo o maior fracasso, mesmo o pior erro não é pior do que tentar. O que conta é apenas buscar cada assombro daquele, cada encantamento ascendente de quem se ama o mais distante possível do mágico e o mais próximo de você mesmo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Herói


Uma criança me parou num shopping e me perguntou qual era meu super-herói favorito, sem reação não consegui responder, e naquele milésimo de segundo reparei que eu nunca havia escolhido um super-herói, que aquela fantasia simples e total imaginária nunca havia feito parte de mim. Então, disse a ele que eu não tinha nenhum, desapontado ele saiu com seu boneco do super-homem na mão.


Então, qual o meu herói? Por que não ter um, ou por que ter um? Afinal, todo herói tem sua kryptonita, todos se deixam encantar por alguém que lhe mostrará todos os medo dos quais você nunca teve, que você revelará seus segredos mais obscuros e sombrios, que você se entregará sem nenhuma noção de perigo das quais você sempre criou regras e recursos pra se prevenir, seja seu sensor aranha, visão de raio-x, batcaverna ou toda uma liga da justiça de amigos que te ajudam nas missões mais complexas, mas que nem eles sabem daqueles seus segredos. 


Todo herói, seja ele com superpoderes ou não tem a sua kryptonita, tem sua Lana Lang, todo herói tem seu personagem próprio pra se camuflar daquilo que só ele sabe de si, e que só ela saberá, e a partir daí você não mais defenderá seu mundo, mas o mundo dela seja qual for o risco, mesmo os mais simples como quando ela sobe em uma cadeira por causa de um rato, de uma barata, medo de filmes de terror ou assalto na porta do condomínio, você estará sempre pronto pra protegê-la, mesmo ferido, com uma perna quebrada, ou um dedo só. E ela não terá medo de viver com esse herói e correr todos os perigos que possa surgir, ela até é capaz de assumir tais perigos, ela só precisa de uma coisa, estar segura de quando ele diz Eu Te Amo.